
Mais do que lazer, o programa atendeu quase 8 mil pessoas em 2025 com foco no envelhecimento ativo, na segurança do viajante e na valorização dos territórios locais.
Para Rosa Maria Lima, 64 anos, viajar através do Turismo Social do Sesc Ceará começa muito antes da chegada ao destino. Começa no instante em que o ônibus liga os motores e ela, acomodada na poltrona ao lado do marido, decide olhar em volta. Ali, inicia-se um ritual silencioso e particular: decorar o nome de cada um dos 40 passageiros que compartilham a estrada.
Professora aposentada, Rosa passou a vida entre a disciplina das salas de aula e os cuidados com os filhos. Agora, com o tempo a seu favor, ela e o esposo encontraram no Turismo Social do Sesc uma forma de alargar as fronteiras de casa. Não se trata apenas de passear, mas de transformar desconhecidos em pares.
“A gente entra no ônibus e parece que todo mundo é estranho. Mas eu termino a viagem sabendo quem é quem. É uma segurança de estar em família”, diz Rosa, com a simplicidade de quem entende que viajar é, sobretudo, um exercício de convivência. Desde novembro de 2023, o casal já coleciona carimbos. A rotina doméstica, antes repetitiva, ganhou pausas de respiro e expectativa.
O relato de Rosa ilustra a essência de um programa que, embora lide com lazer, opera sobre pilares de saúde pública e assistência. Diferente do turismo comercial, focado no consumo visual dos destinos, o modelo social prioriza a integração e a acessibilidade. É uma engrenagem que, somente no último ano, movimentou quase oito mil passageiros no Ceará.
Para Sabrina Veras, diretora de Programação Social do Sesc Ceará, o Turismo Social integra a atuação permanente da Instituição para ampliar o acesso ao lazer e à cultura com organização e cuidado. “Quando pensamos na elaboração de um roteiro, buscamos oferecer uma experiência que vá além da diversão. O Turismo Social do Sesc atua a partir do turismo de experiência e da cultura local, promovendo vivências que aproximam as pessoas dos territórios, de suas histórias, saberes e paisagens. Nossos clientes são convidados a conhecer e valorizar a beleza singular de cada lugar, em experiências construídas com respeito, pertencimento e significado”, explica.
Na mesma linha, Carla Loureiro, gerente de Turismo Social do Sesc Ceará, afirma que a ideia central do programa é garantir o direito ao lazer e ao turismo como dimensões da cidadania. “Enquanto política institucional, o Turismo Social democratiza o acesso a experiências de qualidade, especialmente para trabalhadores do comércio, seus dependentes e o público 60+”, diz. Segundo ela, o diferencial está no acolhimento, entendido como cuidado que começa no planejamento e segue até a condução da viagem, com segurança, escuta, respeito ao ritmo de cada pessoa e atenção às suas necessidades físicas, emocionais e sociais. “É um turismo que transforma quem viaja e fortalece quem recebe”, completa.
A técnica por trás do acolhimento
A sensação de segurança relatada pelos viajantes é resultado de um protocolo rígido de planejamento. Não se escolhe um destino apenas pela beleza cênica, mas pela viabilidade do acolhimento. Débora Minervino, turismóloga do Sesc, explica que a curadoria dos roteiros passa por um filtro técnico para responder perguntas como: o local é acessível? O ritmo da viagem respeita a mobilidade de quem tem mais de 60 anos? “Não podemos pensar num turismo de aventura sem considerar o perfil do nosso público. Tudo é calculado, do tempo de espera no aeroporto à estrutura de apoio médico no destino”, detalha Débora.
Essa logística inclui a presença constante de guias credenciados pelo Ministério do Turismo e, nas excursões, o acompanhamento de técnicos da Instituição. A estratégia financeira também é desenhada. Ao priorizar a rede hoteleira do Sesc e o regime de pensão completa (café, almoço e jantar), garante-se que o idoso ou o trabalhador do comércio não tenha surpresas orçamentárias. O viajante sai de casa sabendo exatamente quanto vai gastar e o que vai comer.
Viajar para aprender
Enquanto Rosa busca o vínculo afetivo, Zilda de Oliveira, geógrafa aposentada, busca a compreensão do território. Cliente do Sesc há 12 anos e mantendo uma média de uma viagem por mês, ela personifica o envelhecimento ativo e intelectualizado. Para Zilda, o ponto turístico é apenas o cenário para uma investigação mais profunda.
Em Fernando de Noronha ou nas trilhas de Guaramiranga, ela conversa com moradores, motoristas e trabalhadores locais; quer entender como vivem, o que comem, como a cidade funciona. “Se estivesse na universidade hoje, teria teses para muitos mestrados só com o que aprendo conversando nessas viagens”, afirma.
A estrutura de segurança do Sesc permite que Zilda exerça sua independência. Mesmo quando o marido não pode acompanhá-la, ela segue viajando, muitas vezes sozinha, amparada pela estrutura do grupo. Seja tomando café em uma quenga de coco no projeto Povos do Mar ou visitando comunidades no interior, ela reforça que a curiosidade é um antídoto contra a inércia.
Impacto no território
O conceito trabalhado pela instituição é o de “Turismo com Propósito”. A ideia é que a presença do visitante gere impacto positivo na ponta. Os roteiros fogem do óbvio para incluir Museus Orgânicos, mestres da cultura e vivências comunitárias. Ao levar grupos para consumir a gastronomia e o artesanato locais, o Sesc injeta renda diretamente nas comunidades, criando um ciclo onde o turismo serve ao desenvolvimento regional, e não apenas à exploração do local.
Novos horizontes
No fim das contas, a bagagem volta mais pesada. Não apenas de souvenirs, mas de vínculos. Rosa, que começou viajando só, já convenceu três casais de amigos a embarcarem para Parnaíba na próxima temporada. A rede de afeto se expande, provando que, no Turismo Social, o destino final é sempre o encontro com o outro.

